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Fugir da dor e buscar o prazer: um equívoco comum

  • Foto do escritor: Ariel Marques
    Ariel Marques
  • há 6 dias
  • 2 min de leitura

“Fuja da dor, busque o prazer.” Diante dessa afirmação tão presente em nossos dias, cabe um questionamento fundamental: onde está escrito que a dor é necessariamente ruim e o prazer, sempre bom?


O Mito do Hedonismo Constante

Para compreendermos essa dinâmica, é preciso contextualizar o que realmente entendemos por dor e prazer. Muitas vezes, o imperativo de “fugir da dor” reflete apenas o desejo de não enfrentar dificuldades ou a incapacidade de aproveitar os desafios quando eles surgem. Viver de forma plena exige ressignificar perdas e compreender que situações desagradáveis são fios inevitáveis na tapeçaria da vida.

Não somos masoquistas a ponto de desejar o sofrimento, mas tampouco deveríamos ser hedonistas incansáveis, buscando o prazer o tempo todo como se essa fosse a única finalidade da existência. Cada processo tem o seu tempo e, com ele, surgem emoções e experiências distintas que não podem ser simplesmente ignoradas ou descartadas.


A Dor como Processo de Amadurecimento

Compreender que dor e felicidade fazem parte do mesmo processo existencial é fundamental para quem deseja viver de forma mais consciente. Esse entendimento nos permite amadurecer, desenvolver resiliência e construir uma relação mais realista e saudável com a própria realidade.

Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e fundador da Logoterapia, aborda esse tema de forma profunda em sua obra Em Busca de Sentido. Como sobrevivente dos campos de concentração, Frankl observou que, mesmo nas circunstâncias mais atrozes, o ser humano possui a liberdade última de escolher sua atitude perante o destino. Sobre a capacidade de elevar-se acima do sofrimento, ele afirma:

“A vida dessas pessoas acaba se desvanecendo, em vez de alçar-se a um ponto alto justamente sob as dificuldades extremas da reclusão, para as quais em princípio haveria chance. Naturalmente, são poucas as pessoas capazes disso; mas elas conseguiram, mesmo no fracasso exterior e mesmo na morte, alcançar uma grandeza humana que antes, em sua existência cotidiana, talvez jamais lhe tivesse sido concedida.”
Hércules na Encruzilhada (A Escolha de Hércules), Annibale Carracci, c. 1596. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Capodimonte, Nápoles.
Hércules na Encruzilhada (A Escolha de Hércules), Annibale Carracci, c. 1596. Óleo sobre tela. Museu Nacional de Capodimonte, Nápoles.

O Sentido que Transforma

Assim, a dor deixa de ser apenas um erro de percurso a ser evitado e revela-se como uma experiência que, embora indesejada, carrega em si um raro potencial formativo. Não se trata de romantizar o sofrimento ou buscá-lo deliberadamente, mas de reconhecer que ele é um território onde a alma pode ganhar contornos mais profundos.

Quando enfrentada com consciência, a adversidade deixa de ser um "vazio" para se tornar um espaço de construção. Ela nos retira da superfície de uma vida baseada em satisfações imediatas e nos convida a descobrir uma solidez que o prazer, por sua natureza efêmera, jamais poderia oferecer.

Viver de forma plena não é caminhar pela ausência de problemas, mas possuir um porquê que nos sustente diante de qualquer como. No horizonte da existência, fugir da dor a todo custo é, em última análise, fugir da própria oportunidade de amadurecer. Que possamos, portanto, não buscar o caminho mais fácil, mas o caminho que possui mais sentido — pois é nele que a verdadeira grandeza humana se revela.


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