Fugir da dor e buscar o prazer: um equívoco comum
- Ariel Marques

- há 6 dias
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“Fuja da dor, busque o prazer.” Diante dessa afirmação tão presente em nossos dias, cabe um questionamento fundamental: onde está escrito que a dor é necessariamente ruim e o prazer, sempre bom?
O Mito do Hedonismo Constante
Para compreendermos essa dinâmica, é preciso contextualizar o que realmente entendemos por dor e prazer. Muitas vezes, o imperativo de “fugir da dor” reflete apenas o desejo de não enfrentar dificuldades ou a incapacidade de aproveitar os desafios quando eles surgem. Viver de forma plena exige ressignificar perdas e compreender que situações desagradáveis são fios inevitáveis na tapeçaria da vida.
Não somos masoquistas a ponto de desejar o sofrimento, mas tampouco deveríamos ser hedonistas incansáveis, buscando o prazer o tempo todo como se essa fosse a única finalidade da existência. Cada processo tem o seu tempo e, com ele, surgem emoções e experiências distintas que não podem ser simplesmente ignoradas ou descartadas.
A Dor como Processo de Amadurecimento
Compreender que dor e felicidade fazem parte do mesmo processo existencial é fundamental para quem deseja viver de forma mais consciente. Esse entendimento nos permite amadurecer, desenvolver resiliência e construir uma relação mais realista e saudável com a própria realidade.
Viktor Frankl, psiquiatra austríaco e fundador da Logoterapia, aborda esse tema de forma profunda em sua obra Em Busca de Sentido. Como sobrevivente dos campos de concentração, Frankl observou que, mesmo nas circunstâncias mais atrozes, o ser humano possui a liberdade última de escolher sua atitude perante o destino. Sobre a capacidade de elevar-se acima do sofrimento, ele afirma:
“A vida dessas pessoas acaba se desvanecendo, em vez de alçar-se a um ponto alto justamente sob as dificuldades extremas da reclusão, para as quais em princípio haveria chance. Naturalmente, são poucas as pessoas capazes disso; mas elas conseguiram, mesmo no fracasso exterior e mesmo na morte, alcançar uma grandeza humana que antes, em sua existência cotidiana, talvez jamais lhe tivesse sido concedida.”

O Sentido que Transforma
Assim, a dor deixa de ser apenas um erro de percurso a ser evitado e revela-se como uma experiência que, embora indesejada, carrega em si um raro potencial formativo. Não se trata de romantizar o sofrimento ou buscá-lo deliberadamente, mas de reconhecer que ele é um território onde a alma pode ganhar contornos mais profundos.
Quando enfrentada com consciência, a adversidade deixa de ser um "vazio" para se tornar um espaço de construção. Ela nos retira da superfície de uma vida baseada em satisfações imediatas e nos convida a descobrir uma solidez que o prazer, por sua natureza efêmera, jamais poderia oferecer.
Viver de forma plena não é caminhar pela ausência de problemas, mas possuir um porquê que nos sustente diante de qualquer como. No horizonte da existência, fugir da dor a todo custo é, em última análise, fugir da própria oportunidade de amadurecer. Que possamos, portanto, não buscar o caminho mais fácil, mas o caminho que possui mais sentido — pois é nele que a verdadeira grandeza humana se revela.
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